Vestida de Tempo
O mar estava calmo, mas tinha aquele sussurro antigo que só aparece quando o mundo está prestes a dizer algo importante.
Eu a vi sentada sobre uma pedra, cabelos esvoaçantes ao vento, um vestido leve que se dá com a brisa como se tivesse vontade própria. Ela não parecia pertencer a areia nem a água, parecia ser feita de tempo. Seu olhar profundo, como se já tivesse visto todas as despedidas do mundo, repousava sobre o horizonte.
Me aproximei, quase sem perceber. Havia nela uma familiaridade estranha, como um perfume que você conhece antes mesmo de sentir.
— Você é linda demais, é como algo sobrenatural — falei, com aquele tom que se usa quando se sabe que se está diante de algo maior.
Ela sorriu com delicadeza e não respondeu. Apenas estendeu um a concha em minha direção, como presente ou presságio.
— Por que veio hoje? — Perguntei, tocado por inquietação que não sabia de onde vinha — Por que não me avisou?
Ela me olhou com tristeza leve, dessas que não machucam, mas fazem pensar.
— Eu te avisei tantas vezes... — disse, com a voz feita de areia e água, em todos os silêncios, nas saudades sem nome, nos momentos em que o tempo parecia escorrer pelo seus dedos.
— Desde menino... eu ouço falar de você — confessei. Nos sussurros dos mais velhos, nos pesadelos, nas histórias que terminam de repente. Eu devia tê-la reconhecido.
Ela levantou-se. Seus pés tocavam a areia como quem não deixa rastros. Caminhou ao meu lado, em nenhum momento olhou para trás.
— Você veio para mim? — Perguntei, com a voz cansada de tantos porquês.
Ela apenas me olhou. E naquele olhar, eu vi tudo: o primeiro choro, o último suspiro, os dias que corri demais, os que desperdicei com medo. Ela era todas as ausências do mundo reunidas num sorriso calmo e então entendi.
Ela não veio para me tirar, veio como companhia.
Mas não como quem encerra, mas como quem completa.